Me chama a atenção nos discursos dos candidatos durante esse período eleitoral a promessa de baixar as taxas de juros praticadas na economia brasileira. As taxas praticadas por aqui estão há algum tempo entre as mais altas do mundo.
Para que todos possam entender o conceito, taxa de juros é o custo do dinheiro praticado no mercado financeiro. Quando a taxa de juros está alta significa que há uma grande parcela da população buscando dinheiro no mercado, beneficiando os poupadores que recebem um prêmio maior por terem disciplina por adiar o consumo e punindo os indivíduos que buscam o consumo imediato. Já quando a taxa de juros está baixa, significa que há uma oferta maior de dinheiro disponível no mercado.
Atualmente a taxa de juros cobrada na modalidade cheque especial no Brasil está em torno de 157% ao ano. Só para termos uma idéia, nos EUA um crédito similar custa em torno de 12% ao ano.
Esse assunto é bastante interessante de ser analisado, afinal como uma pessoa se sujeita a pagar 157% além do montante principal para tomar um empréstimo? Por que no Brasil há uma motivação acima da média dos países para as pessoas buscarem o consumo imediato ao invés de terem disciplina para juntar o montante necessário para adquirir determinado bem?
Existem alguns motivadores importantes para as pessoas terem essa atitude, tais como:
1) Uma grande incerteza se existirá o dia de amanhã. Preferem consumir imediatamente, não acreditando que terá a possibilidade de consumir no futuro. É a mesma atitude que tomaria um doente em estado terminal ao preferir comer um prato saboroso imediatamente ao invés de continuar com sua comida dietética, se privando de ter algum prazer no pouco de vida que lhe resta;
2) Enorme carência afetiva. Quando as instituições oferecem o acesso ao crédito, as pessoas se sentem acolhidas e prestigiadas. Isso é muito atraente, pois são marginalizadas por tantas outras esferas da sociedade. Dessa forma, verifica-se que a baixa auto-estima acaba influenciando diretamente na decisão do individuo por tomar crédito por um custo exorbitante.
As instituições que oferecem crédito entendem bem essas características das pessoas. Para termos algumas pistas do funcionamento dessa dinâmica, basta prestarmos a atenção na publicidade dessas instituições que sempre demonstram as pessoas atingindo uma qualidade de vida melhor, chegando uma das instituições a dizer que com ela o cliente irá se sentir “completo”, afinal não há sonho maior do que atingir a completude. Outras chegam a oferecer produtos em 12 ou 24 vezes SEM JUROS. Como pode uma instituição oferecer tamanha bondade num país onde pratica-se as maiores taxas de juros do mundo? Uma verdadeira mãe para uma população tão carente. Obviamente não há razões para alguém se sentir “completo” tendo que reservar parcela significativa de sua renda para o pagamento de juros. Com tamanho fator emocional dirigindo as vidas das pessoas, não há espaço para reflexão sobre o que acontece em suas vidas.
Fácil entender porque é interessante para a minoria que empresta dinheiro que as pessoas permaneçam nesse nível de inconsciência e não há motivos para esperarmos que algum governante seja capaz de diminuir as taxas de juros do país. É necessário que haja uma força INDIVIDUAL para que atinja um estágio rumo ao entendimento de quais são os reais motivadores INDIVIDUAIS para tomar atitudes tão irracionais. Obviamente seria mais fácil para todos que algum determinante externo - nesse caso os governantes - “resolvessem” a situação e baixassem compulsoriamente o custo do dinheiro, porém é muito simples entender que as taxas de juros irão baixar somente se a busca por crédito diminuísse.